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28 de agosto de 2026

O adolescente e o celular: entre a conexão e a solidão

Quando a tela se torna companhia, refúgio e, algumas vezes, o lugar onde o adolescente tenta encontrar aquilo que falta fora dela.

O adolescente e o celular: entre a conexão e a solidão

Por Cristina Moreira

Quando o celular se apaga: o que continua aceso dentro do adolescente?

Vivemos em uma época em que o celular deixou de ser apenas um aparelho de comunicação. Para muitos adolescentes, ele se tornou uma extensão da própria vida.

É por meio da tela que conversam, fazem amizades, acompanham acontecimentos, compartilham sentimentos, constroem imagens de si mesmos, buscam reconhecimento e, muitas vezes, encontram um espaço para dizer aquilo que não conseguem expressar pessoalmente.

Mas existe um paradoxo que merece nossa atenção:

Ao mesmo tempo em que o celular aproxima, ele também pode afastar. Ao mesmo tempo em que conecta, pode produzir isolamento.

A adolescência e a construção da identidade

A adolescência é um período de profundas transformações.

O corpo muda, os vínculos familiares se reorganizam, surgem novas experiências, desejos, inseguranças e perguntas sobre identidade e pertencimento.

O jovem começa a buscar maior autonomia e, simultaneamente, precisa encontrar seu lugar no grupo social.

Nesse cenário, o celular ocupa um espaço importante. Ele não é apenas um objeto tecnológico. É também um lugar de convivência.

Nele estão os amigos, os grupos, os jogos, as músicas, os vídeos, as redes sociais e inúmeras referências que participam da construção da identidade do adolescente.

Por isso, diante de um jovem que passa muitas horas conectado, talvez seja insuficiente perguntar apenas:

“Por que ele não larga o celular?”

Talvez seja necessário perguntar:

“O que ele encontra ali?”

E, principalmente:

“O que ele está buscando através dessa conexão?”

A necessidade de pertencer

A necessidade de pertencer ocupa um lugar importante na adolescência.

Ser reconhecido pelos pares, sentir-se aceito e encontrar pessoas com as quais possa se identificar faz parte desse processo.

Nas redes sociais, essa necessidade pode ganhar uma dimensão ainda maior.

Uma curtida, um comentário, uma visualização ou uma mensagem podem assumir significados que vão muito além daquilo que representam objetivamente.

A pergunta:

“Quantas pessoas curtiram minha foto?”

pode transformar-se, silenciosamente, em outras perguntas:

“Será que gostam de mim?”

“Será que sou interessante?”

“Será que sou aceito?”

“Será que pertenço a algum lugar?”

Freud, ao discutir o narcisismo, oferece elementos importantes para pensar essa relação com o olhar do outro.

O desejo de reconhecimento não nasceu com as redes sociais. Ele faz parte da experiência humana.

O que mudou foi a velocidade, a dimensão e a permanência desse olhar.

Hoje, o adolescente pode receber, em poucos minutos, uma quantidade enorme de avaliações sobre a imagem que apresenta.

A comparação que nunca termina

As redes sociais apresentam, muitas vezes, uma realidade cuidadosamente selecionada.

Corpos considerados perfeitos, viagens, festas, amizades, relacionamentos, conquistas e momentos de felicidade são apresentados diariamente.

O adolescente pode acabar comparando sua vida cotidiana, com todas as suas dificuldades, com uma versão editada da vida dos outros.

E pode pensar:

“Minha vida é sem graça.”

“Eu não sou bonito o suficiente.”

“Todo mundo tem amigos, menos eu.”

“Todo mundo parece feliz.”

A comparação sempre existiu.

A diferença é que hoje ela pode acontecer praticamente o tempo todo.

O adolescente carrega no bolso um universo inteiro de imagens, opiniões e referências.

Não existe mais apenas o olhar do colega da escola. Existe uma multidão disponível na tela, pronta para observar e ser observada.

Conectado, mas sozinho

Um dos grandes paradoxos da atualidade é que nunca tivemos tantas possibilidades de comunicação e, ao mesmo tempo, podemos experimentar uma profunda sensação de solidão.

Um adolescente pode conversar com dezenas de pessoas durante o dia e ainda sentir que não tem com quem realmente falar.

Pode possuir centenas de seguidores e sentir que ninguém o conhece verdadeiramente.

Pode publicar constantemente e, mesmo assim, não conseguir dizer aquilo que realmente sente.

A comunicação digital facilita o contato, mas não garante intimidade.

É possível estar presente em diversos grupos e continuar se sentindo sozinho.

É possível receber muitas mensagens e não encontrar espaço para dizer:

“Eu não estou bem.”

Quando o celular vira refúgio

A tela também pode funcionar como um refúgio.

Diante da angústia, da solidão, de conflitos familiares ou de dificuldades nos relacionamentos, permanecer conectado pode oferecer distração e alívio momentâneo.

É importante, porém, não transformar o celular em vilão.

Nem todo adolescente que utiliza muito o aparelho está necessariamente vivendo um sofrimento psicológico.

A questão é compreender o significado desse uso para cada sujeito.

Para um adolescente, o celular pode representar diversão e amizade.

Para outro, pertencimento.

Para outro, uma maneira de lidar com a solidão.

Para outro, uma forma de evitar conflitos ou não entrar em contato com sentimentos difíceis.

Por isso, a pergunta psicanalítica não é apenas:

“Quanto tempo ele fica no celular?”

Mas também:

“Como ele está quando não está no celular?”

Essa pergunta pode revelar muito.

Pais: menos fiscalização, mais presença

Os limites são importantes.

O adolescente precisa aprender a equilibrar o uso da tecnologia com sono, estudos, atividades físicas, convivência familiar, experiências presenciais e momentos de descanso.

Mas estabelecer limites não deveria significar abandonar o diálogo.

Quando a relação entre pais e filhos se transforma apenas em fiscalização, o celular pode se tornar um campo permanente de batalha.

Talvez seja mais produtivo perguntar:

“O que você gosta de acompanhar?”

“Com quem você conversa?”

“O que você sente quando está nas redes?”

Mais do que controlar apenas o tempo de tela, talvez seja necessário compreender o lugar que essa tela ocupa na vida do adolescente.

Quando a tela se apaga

A tecnologia faz parte do mundo contemporâneo e não podemos simplesmente retirá-la da vida dos adolescentes.

O desafio está em ajudá-los a construir uma relação mais consciente com esse universo, sem perder o contato consigo mesmos e com aqueles que estão ao seu redor.

Talvez essa seja uma das perguntas mais urgentes para pais, educadores e profissionais que trabalham com adolescentes:

“Quando o celular se apaga, existe alguém disponível para escutar aquilo que continua aceso dentro dele?”

Porque, muitas vezes, por trás de horas de conexão pode existir uma necessidade de reconhecimento.

Por trás de uma exposição constante, pode existir insegurança.

Por trás de muitas mensagens, pode existir solidão.

E por trás do silêncio de um adolescente, pode existir algo que ainda não encontrou palavras.

Escutar é também perguntar o que existe para além da tela.

Referências

ERIKSON, Erik H. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar.

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). São Paulo: Companhia das Letras.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). São Paulo: Companhia das Letras.

TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu Editora.

AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Health Advisory on Social Media Use in Adolescence. Washington, DC: APA, 2023.

Maria Cristina Barbosa Moreira

Psicanalista | Atendimento Online

A psicanálise oferece um espaço de escuta e elaboração, onde aquilo que muitas vezes não encontra palavras pode começar a ser compreendido.

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